O pássaro agreste
Sobre a singular obra de Orides Fontela na poesia brasileira
Ivan Marques é professor de Literatura Brasileira na USP, autor do livro ‘Orides Fontela’ (EdUERJ, 2020) e diretor do documentário ‘Orides – A um Passo do Pássaro’.
Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
nossa visão se constrói. O real
nos doerá para sempre.
(“Torres”, Orides Fontela)
Orides Fontela (1940-1998) ocupa um lugar singular na poesia brasileira do último meio século. Sua obra é feita de poucos títulos — Transposição, Helianto, Alba, Rosácea e Teia —, livros compostos de poemas breves, repletos de espaços brancos, a um passo do silêncio. Às vezes lembram haicais; outras vezes, soam como aforismos, provérbios e sentenças. O que mais seduz o leitor é sua capacidade de dizer muito com mínimas palavras.
Também chama atenção em seus versos uma curiosa mescla de tendências aparentemente contraditórias: de um lado, a busca da essência, da elevação e da transcendência, figurada sobretudo no símbolo do pássaro, um dos mais importantes de sua poesia; de outro, a presença recorrente de imagens ligadas à destruição, ao “sangue vivo” e às asperezas da realidade. “Fatos são pedras duras” — dirá a poeta, citando Clarice Lispector —, “não há como fugir”.
A escrita poética de Orides nasce justamente desse impasse. A imagem do “pássaro agreste”, que aparece mais de uma vez em seus textos, talvez seja uma das chaves de leitura dessa poesia tão intrigante. Ao mesmo tempo aérea e terrestre (conectada à dureza do mundo), essa figura já desponta nos inúmeros pousos de pássaros que se repetem ao longo da obra, culminando, no último livro, na aparição de um espantoso “antipássaro”, cujo “ninho é pedra” e que “resiste aos céus”.
Sem prejuízo de suas vinculações com o misticismo, a sabedoria oriental e a filosofia (notadamente a dos gregos antigos), a poesia de Orides tem como fundamento a vivência do “real” que “doerá para sempre”. Se em muitos poemas ela busca a essência das coisas, aspirando à pureza ou ao silêncio, sua lucidez não lhe permite ignorar, do alto de suas “torres abstratas”, a experiência incontornável que, em Claro enigma, Carlos Drummond de Andrade chamou de “contato furioso com a existência”.
A obra de Orides Fontela nos impressiona ainda pela forte consciência do fazer poético. Embora ela dissesse, com ênfase, que se considerava uma poeta “inspirada”, seus textos, pelo corte preciso, pelo apuro verbal e pela extrema concentração, revelam um trabalho formal rigoroso. Talvez haja aí um diálogo com o concretismo, mas suas raízes mais profundas parecem estar mesmo na tradição modernista: a lírica desencantada de Manuel Bandeira, a poesia irônica de Drummond, a radical antilira de João Cabral de Melo Neto. Ainda assim, sua voz permanece inconfundível, sustentando, em seus melhores momentos, um equilíbrio raro entre pensamento e sensibilidade, entre lucidez e vertigem.
Sobre o autor
Ivan Marques é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo. É autor de Cenas de um Modernismo de Província: Drummond e Outros Rapazes de Belo Horizonte (Editora 34, 2011), Orides Fontela (EdUERJ, 2020) e João Cabral de Melo Neto – Uma Biografia (Todavia, 2021), entre outros livros. Dirigiu o documentário Orides – A um Passo do Pássaro, exibido na TV Cultura de São Paulo.
(porque sempre temos algo novo para ler)
Teia, de Orides Fontela. Editora Hedra (2026)
Autora homenageada da 24ª Flip, Orides Fontela ganhou uma nova edição de Teia (1996), seu último livro publicado em vida e vencedor do prêmio APCA.
Nesta obra, a poeta desloca sua escrita da busca pela transcendência para um confronto mais direto com a matéria, a finitude e a aspereza do real. A imagem do “pássaro”, presente em livros anteriores, dá lugar à da aranha: figura paciente e silenciosa que tece armadilhas para capturar o sentido. Com sua dicção precisa e econômica, Orides constrói uma poesia de tensão extrema entre clareza e silêncio.
Esta reedição conta com textos de Marilena Chaui e Ivan Marques.
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Com uma escrita marcada pela precisão, pela densidade filosófica e pela economia da linguagem, sua poesia segue atravessando leitores e escritoras de diferentes gerações.
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Já li todos os livros e continuarei lendo. A cada leitura uma nova vibração poética, uma nova energia emerge de sua poesia sussurrante e poderosa. O silêncio antes do som do grito.
Parabéns pela ideia desse curso, Escrevedeira! Sempre fui leitora da poesia de Orides e sempre achei que ela estava esquecida pelos brasileiros. Como escolhida da Flip e agora com esse curso, nasce (na verdade renasce uma obra seminal.